Abraham Durán
A nossa equipe passou mais de dez anos servindo um povo não Árabe localizado no Oriente Médio e na Ásia Central. Pela misericórdia não merecida de Deus, eles viram a formação de uma igreja com algumas centenas de pessoas vindo a Jesus. A maioria destes cristãos de origem muçulmana veio ao Senhor pelos esforços de uma equipe local que foi fruto da capacitação e visão da nossa equipe original.
Neste artigo quero citar sete fatores que foram eficazes neste caso e que podem ser importantes para considerar na evangelização de muçulmanos. Segundo nossa experiência limitada e localizada, notamos pessoas aceitando a Cristo quando:
- Elas estavam prontas para o Evangelho
- Seus preconceitos foram destruídos
- Construíamos com base no que eles sabiam
- Elas viram a beleza de Jesus
- Nós lhes contamos a verdade sobre Jesus
- Elas viram a manifestação do reino de Deus
- Elas percebiam que havia uma comunidade para apoiá-las.
Vamos agora analisar cada um desses fatores com mais atenção.
- Elas estavam prontas para o Evangelho
A Bíblia dá claras indicações de que Deus tem momentos especiais para fazer as coisas acontecerem. Em Gênesis 15, o Senhor disse a Abraão que seus descendentes iriam ser cativos por quatrocentos anos. Então, na hora certa, ele levantou Moisés para libertar os cativos. Em Marcos 1.15 Jesus anunciou: “O tempo é chegado. O Reino de Deus está próximo”. Gálatas 4.4 diz: “mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da Lei”. Paulo vê seu chamado à vida e ministério em termos semelhantes: “Mas Deus me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça. Quando lhe agradou revelar o seu Filho em mim…” (Gl 1.15-16 ).
Sabemos que o Espírito Santo impediu Paulo de levar o evangelho para a província romana da Ásia e, em vez disso, levou-o para a Europa (At 16.6-10), onde ele teve um ministério difícil, porém, maravilhoso. Mais tarde, o caminho se abriu para ele na Ásia, com muito fruto (At 19.10).
Não sei, ao certo, como isso funciona. Há um forte debate teológico sobre o porquê Deus, “que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2.4), iria esperar pelo momento certo para fazer algo crucial no plano da salvação (1Tm 2.6).
Não estou propondo a abordagem fatalista de alguns anciãos na igreja de Williams Carey, que declararam: “Se Deus quer salvar os pagãos, ele pode fazê-lo sem nós”. Não estou propondo uma moratória sobre as terras que parecem difíceis hoje. Pelo contrário, há uma forte indicação nas Escrituras de que estes momentos propícios estão relacionados à oração ou a notáveis respostas de oração. Isto é evidente em textos como: “Muito tempo depois, morreu o rei do Egito. Os israelitas gemiam e clamavam debaixo da escravidão; e o seu clamor subiu até Deus. Ouviu Deus o lamento deles e lembrou-se da aliança que fizera com Abraão, Isaque e Jacó” (Êxodo 2.23-24).
Do que tenho certeza é que há cem anos não era possível para a maioria dos convertidos no meu povo ficar com suas famílias. A influência de líderes comunitários muçulmanos era mais forte que os laços de sangue, e os membros da família eram os primeiros a matar “apóstatas”. Outros fatores estavam envolvidos:
Cultura e fé eram misturadas e novos seguidores de Jesus eram frequentemente encorajados a renunciar aspectos neutros de sua cultura. Também em nossa comunidade o nacionalismo e a modernização definitivamente enfraqueceram o domínio e autoridade de líderes islâmicos.
Respondemos ao convite do Senhor e tentamos ir a esse povo durante dois anos. Mas tivemos que esperar e orar. Entramos na cidade apenas quando era, obviamente, o momento certo.
- Seus preconceitos foram destruídos
A equipe seguiu a abordagem do povo. Era impossível viver uma vida agradável ao nosso povo e, ao mesmo tempo, à pequena comunidade de crentes de origem cristã, aos estrangeiros seculares, aos outros obreiros cristãos e aos outros povos na cidade!
Fizemos um grande esforço para pertencer ao nosso povo adotado. Donald Larson escreveu, “Quando examinamos aqueles que falharam [no propósito de serem aprendizes de linguagem bem sucedidos], muitas vezes, percebemos que eles não se veem como de fora – ao contrário, não se importam se são ou não aceitáveis aos de dentro”.
Fizemos todos os esforços possíveis, pela graça de Deus, para pertencer ao nosso povo adotado. Aprendemos qual era o perfil ideal de um homem e de uma mulher na visão deles e tentamos nos encaixar naqueles padrões. Tentamos caminhar, nos comportar, comer, beber, falar, compartilhar, fazer silêncio, dormir e nos relacionar da maneira que nosso povo alvo considerasse certo, apropriado e ideal.
Não fizemos de nossas realizações (ou falta de realizações) a medida de nossa auto-estima. Em vez disso, lutamos para agradar apenas a Cristo – e não agradá-lo tentando agradar a todos “pelo amor de Cristo”. Nem todo membro da equipe conseguiu fazer isso. Alguns tiveram que retornar para casa ou precisaram de apoio contínuo da equipe para permanecer.
Estávamos focados em um povo e fizemos tudo o que não estaria em contradição com a vontade do Senhor, a fim de evitar sermos pedras de tropeço para eles. Ouvimos não crentes comentando com outras pessoas como nos tornamos um com eles. Defenderam a nossa reputação perante as pessoas que não nos conheciam. Em alguns casos, até contradisseram abertamente as declarações de líderes religiosos contra nós.
É claro que não éramos perfeitos ou sempre coerentes, mas a graça de Deus operou tanto para nos ajudar a destruir preconceitos sobre como os cristãos se comportam. Deus também ajudou as pessoas a esquecer de nossos erros e a ver os nossos esforços para sermos como eles. Lutamos para remover os preconceitos deles contra a confiabilidade da Bíblia e quanto ao significado das crenças cristãs. Nunca iniciamos discussões apologéticas, mas dávamos respostas apropriadas, fazendo com que as conversas tratassem de assuntos como a verdade, o pecado, amor e a personalidade de Jesus.
As pessoas não podem ver a beleza de Jesus se elas só conseguem ver nossa feiura.
- Construíamos com base no que elas sabiam
Não há um determinado nível de contextualização que seja apropriado para todas as sociedades, mas é importante o uso de alguma forma de contextualização. Na maioria dos casos, não é bom tentar apresentar o Evangelho como algo completamente novo – vindo de qualquer profeta desconhecido.
Encontramos muitos muçulmanos que amavam a Jesus, mesmo que pensassem que não podiam ser seus seguidores. Alguns até mesmo o consideravam o personagem mais importante do Alcorão, ou o primeiro grande revolucionário. Outros eram atraídos por sua doutrina de paz. Geralmente é útil começar com o nome e os fatos que eles conhecem sobre esta figura intrigante.
Os muçulmanos podem entender melhor a beleza de Jesus se a palavra que usarmos para Jesus ajudá-los a saber que estamos falando de um de seus profetas, e não um dos profetas dos cristãos.
- Elas viram a beleza de Jesus
Tentamos levar as pessoas a Jesus, atraindo-as para sua personalidade e ensinamentos. A palavra-chave é atração. Uma vez que mal-entendidos e preconceitos começaram a ser destruídos e prosseguimos utilizando ideias sobre Jesus aceitas por todos os muçulmanos, conseguimos apresentar a beleza dos ensinamentos de Jesus sobre Deus, os seres humanos, a sociedade, os líderes religiosos e o reino de Deus. Fizemos isso antes de conversar com eles sobre quem é Jesus.
Isso aprendemos com o próprio Mestre, que falou com os primeiros discípulos sobre muitas coisas antes de ensiná-los sobre ele mesmo. Quando ele finalmente fez isso, ele começou com uma pergunta: “Quem vocês pensam que eu sou?”.
As palavras de Jesus têm seu maior poder quando elas nos convencem, não racionalmente, mas através da experiência. Jesus fala sobre as coisas importantes na vida: como Deus, a natureza humana, o pecado, a família, desejos e ganância. Acreditamos nele não porque ele nos convence intelectualmente, mas porque o seu ensino “soa verdadeiro” – ressoa com a nossa experiência.
Nós, muitas vezes, não entendemos o que ele diz. Muitas vezes ele vai contra o que parece lógico. Seu caminho é completamente em desacordo com o caminho do forte e do sábio (A final das contas, não estamos todos nós tentando ser fortes e sábios?). Mas, cremos nele, porque, repetidamente, contra todas as probabilidades, a palavra dele bate com a realidade.
Achamos que somos bons, e descobrimos que não somos capazes de guardar a lei ou honrar resoluções de Ano Novo ou partir para uma nova vida, de forma consistente. Temos certeza de que podemos consertar a sociedade com mais educação, e nossos melhores projetos terminam em caos. Insistimos que a revolução vai resolver os problemas, e, em vez disso, ela os multiplica. Afirmamos que podemos lidar bem com a riqueza e o poder, e eles se tornam nossos mestres. Sabemos que podemos mudar o mundo se a religião estiver no poder, e a religião no poder transforma as pessoas em rebeldes e os santos em atores e monstros.
Assim, os caminhos de Jesus tornam-se atraentes porque eles concordam com a experiência humana. Ao apontar para estes aspectos, falamos com aquela parte interna de nossos amigos muçulmanos que diz “amém” aos ensinamentos de Jesus. Nós não tentamos derrotá-los em uma discussão; ao invés disso, falamos aos seus corações baseado na nossa experiência comum da humanidade.
Na semana que vem daremos sequência.
Extraído do capítulo 20 do livro From the Straight Path to the Narrow Way
(2006: Authentic Media), com permissão do autor.


Uma resposta
Somente conseguimos contemplar a beleza de Jesus quando estamos firmes na Sua palavra, exercemos o amor para com Ele ao obedecer Sua voz e Seus mandamentos, quando estamos em dias com a nossa vida de oração e praticamos o amor que Ele nos ensinou para com nosso próximo.