Diogo Militão
Há alguns anos, quando vivíamos na Tailândia, sofremos uma grande perda em nossa família. Quando aconteceu, fizemos tudo “corretamente”: conversamos, nomeamos as perdas, as alegrias e as dores, separamos espaço para isso e sinto que fomos intencionais.
Eu pensei que estava bem. Todos os “itens” haviam sido conferidos, quase como numa lista de compras. Mesmo que de maneira automática, eu achava que era o suficiente. “Estou bem — pelo menos é pra eu estar!” Afinal, o trabalho não para e a vida segue.
Algumas semanas depois, estava no trânsito quando um carro me cortou — algo que acontece com frequência por lá e nunca tinha me afetado. Mas, naquele dia, afetou – fiquei completamente desregulado. Senti uma raiva enorme e soltei um grito tão alto que as pessoas ao redor ouviram!
A situação era perfeitamente normal. Só a minha reação — a minha resposta emocional — que não era proporcional ao que estava acontecendo.
Claramente, eu ainda estava carregando algumas coisas. Havia uma carga emocional que eu não tinha parado para contemplar de verdade. Precisei me dar tempo para olhar para isso, nomear o que estava acontecendo, colocar diante de Deus e buscar ajuda.
Por isso, creio que aprender a reconhecer, processar e manejar nossas emoções são passos importantes para nos ajudar a permanecer mais tempo — e de maneira mais saudável — no campo.
Nossas emoções estão tentando nos dizer alguma coisa
Uma das primeiras coisas que precisamos aprender é que nossas emoções não são o problema.
Não devemos ignorá-las, mas também não precisamos permitir que elas nos controlem. Sentir raiva não significa que precisamos agir com raiva. Sentir medo não significa que precisamos fugir. Sentir tristeza não significa que estamos fracassando.
Gosto de pensar nas emoções como as luzes do painel de um carro. Quando uma luz acende, ela não é necessariamente o problema. É um sinal de que alguma coisa merece nossa atenção.
O que sentimos funciona de modo parecido. As emoções podem trazer informações importantes sobre o que está acontecendo dentro de nós.
Às vezes, nossos sentimentos revelam uma necessidade. Talvez eu esteja sobrecarregado porque preciso de descanso. Talvez esteja me sentindo sozinho porque preciso de conexão e comunidade.
Às vezes, eles revelam um valor. Posso estar frustrado porque algo que considero importante foi desrespeitado. Posso estar triste porque uma relação que valorizo está passando por dificuldades.
Os sentimentos também podem revelar um limite. Talvez minha irritação esteja mostrando que estou dizendo “sim” para coisas demais. Talvez o ressentimento seja um sinal de que alguma situação precisa ser conversada.
Isso não significa que toda emoção esteja certa em sua interpretação. Ela pode trazer uma informação importante, mas não é, por si só, a verdade completa sobre uma situação.
Por isso, precisamos aprender a ouvi-las.
Dando nome ao que sentimos
É aqui que entra o vocabulário emocional. É muito mais fácil compreender e cuidar de uma situação quando conseguimos reconhecer e nomear o que está acontecendo.
Quando alguém diz: “Estou mal”, o que significa de maneira específica?
Está triste? Cansado? Frustrado? Com medo? Sozinho? Desencorajado? Inseguro? Sobrecarregado? Decepcionado?
Todas essas experiências podem caber dentro de “estou mal”, mas não são a mesma coisa.
Quanto mais específicos conseguirmos ser, maiores são as possibilidades de compreendermos o que estamos vivendo.
Para nós, vivendo do outro lado do mundo e a milhares de quilômetros da nossa família no Brasil, isso se tornava ainda mais tangível. Havia momentos em que a distância deixava de ser apenas geográfica e passava a ser emocionalmente sentida — na saudade, na solidão e na falta de ter por perto pessoas que conhecem nossa história e com quem poderíamos simplesmente descansar.
Aprender novas palavras para nossas emoções não é ficar excessivamente preocupado com sentimentos. É desenvolver uma linguagem que nos permita compreender melhor o que estamos vivendo — e comunicar isso de maneira mais clara a Deus e às pessoas ao nosso redor.
Perceber, nomear, levar a Deus e responder
Tenho trabalhado com quatro passos simples que podem ajudar nesse processo:
- Percebo
Como chego ao final do dia? O que acontece dentro de mim? Meu corpo está dando algum sinal? Estou mais irritado, ansioso, triste ou retraído do que normalmente estaria? (Ou gritando dentro do carro?)
- Nomeio
Depois de perceber, tento encontrar uma palavra específica para aquilo que está acontecendo.
Não apenas “estou mal”, mas posso estar frustrado, com saudade, com medo, decepcionado, ansioso, etc.
Quanto mais específico, melhor.
- Levo a Deus
O que sinto também faz parte da minha vida espiritual. Não preciso esconder de Deus aquilo que sinto, muito menos apresentar a ele uma versão mais organizada de mim mesmo.
O salmista pergunta: “Por que estás abatida, ó minha alma?” (Salmo 42). Ele não ignora sua realidade interior, ele a leva diante de Deus.
Jesus chorou diante da morte de Lázaro. No Getsêmani, falou abertamente sobre sua profunda angústia. A Bíblia não apresenta maturidade espiritual como ausência de emoções.
- Respondo
Finalmente, preciso perguntar: “O que faço com isso?”
Minha emoção é real, mas ela não precisa determinar automaticamente o meu comportamento.
Posso estar com raiva e escolher não responder naquele momento. Posso estar frustrado e decidir conversar com alguém. Posso estar triste e reconhecer que preciso de companhia. Posso estar cansado e perceber que preciso parar.
Nem sempre escolhemos o que sentimos, mas podemos aprender a escolher como responder.
Uma resposta mais saudável
Hoje sei que a minha explosão no trânsito na Tailândia tinha muito mais a ver com aquilo que eu vinha carregando sem perceber. O carro que me cortou foi apenas o gatilho. Havia outras coisas dentro de mim pedindo atenção.
Desenvolver nosso vocabulário emocional nos ajuda justamente nisso: perceber e nomear o que está acontecendo antes que aquilo que carregamos encontre outras formas de aparecer.
Não significa que isso vá eliminar as dificuldades do campo, mas pode nos ajudar a lidar melhor com elas, com uma resposta adequada para cada estação que Deus nos permite viver – positiva ou negativa.
Assim, da próxima vez que alguém perguntar “Como você está?”, tente ir além do “Estou bem”. Pare por um instante. Talvez exista alguma coisa dentro de você tentando ser ouvida.
Para colocar em pratica:
- O que você está sentindo agora?
- Consegue dar um nome mais específico a isso?
- O que isso pode estar lhe dizendo sobre uma necessidade, um valor ou um limite?
- Existe algo além da situação presente que você está carregando?
- Já colocou isso diante de Deus de maneira sincera?
- Qual seria uma boa resposta, em vez de simplesmente uma reação?

