por Joed Venturini
O missionário costuma ter bem presente a noção daquilo que ele sacrificou para estar no campo missionário. Traz de sua cultura evangélica uma ideia de heroísmo ligada à obra missionária, e espera que os povos da terra entendam o quanto estão ganhando com sua presença e o quanto ele abdicou para ser obreiro ali.
A visão dos nativos {na África} será invariavelmente outra. Independentemente de o missionário ter ou não muitas posses, ele será visto como alguém rico. A maioria dos nacionais raciocina que se o missionário saiu de sua terra rica e está ali, numa terra tão pobre, é porque tem alguma vantagem financeira.
Aprender a lidar com isso nem sempre é fácil. Vai depender da capacidade do missionário de se dar a conhecer, e não se pode presumir que isso aconteça rapidamente. Serão necessários meses (ou até anos) para que as pessoas comecem a entender um pouco melhor as razões verdadeiras do missionário. Paciência e perseverança são palavras-chaves.
Como lidar com o famigerado choque cultural?
Não há uma resposta fácil, mas há caminhos a serem trilhados para evitar as perdas causadas por esse choque.
Um deles é: entender que ele é inevitável. Julgar-se imune a ele não vai ajudar. Conhecer e encarar a verdade sempre são os melhores passos, ao invés de tentar fugir ou contorná-la. Será normal não compreendermos muito do que vamos ver, e isso vai causar estresse.
Por exemplo, o missionário ocidental se revolta ao chegar em uma região islâmica onde a poligamia é a regra. Para ele, é uma prática errada e está essencialmente ligada à sensualidade.
Mas, no contexto oriental, a poligamia não tem tanto a ver com sexo e sim com economia e status. Se o homem tem poder e dinheiro, seria falta de generosidade ter apenas uma mulher. Inclusive, tendo em conta que no Islã é o homem que fica responsável pela salvação da mulher, seria antiético e contra a religião um homem rico não aproveitar a oportunidade de salvar várias mulheres. Além disso (a questão econômica está sempre presente), mais esposas significam mais mão de obra e mais terras cultivadas, mais filhos e, novamente, mais mão de obra. Trata-se de um investimento.
E, pensando bem, será que, em certo sentido, não é mais “aceitável” a forma de poligamia oriental, em que o indivíduo assume a mulher e os filhos do que a poligamia ocidental, em que ele tem casos, amantes e namoradas, filhos ilegítimos, mas só assume a mulher oficial? Há em toda incompreensão cultural uma certa hipocrisia que complica ainda mais as coisas.
Mas se nós não vamos entender muitas coisas deles, eles também não entenderão muitas coisas nossas. Lembro-me da expressão de espanto de um africano em visita à nossa casa ao olhar para uma embalagem de adoçante. Tentamos explicar que era uma substância que adoçava sem engordar. Para ele, não fazia sentido. Qual é a utilidade de uma coisa que adoça e não engorda? Não são eles adeptos de mulheres mais fortes? Não é a gordura sinal de beleza e prosperidade? Não vão as mulheres deles ao consultório pedir medicamentos para ganhar peso? Por que alguém gastaria dinheiro numa substância que adoça e não engorda? Ele simplesmente não entendia.
Essa falta de entendimento mútuo vai afetar o trabalho e, muitas vezes, a evangelização. Quando se fez a tradução do evangelho para a língua Balanta, inicialmente a palavra monte foi traduzida por “formigueiro“. É que na região Balanta tudo é planície e eles não conhecem montes. O missionário julgava ter entendido, mas, na verdade, a palavra tinha outro significado. Imagine o que pensaram quando leram que Jesus e seus discípulos subiram no formigueiro para a transfiguração, ou sentou-se nele para ensinar.
Ora, essas histórias, que podem até ser engraçadas quando se referem a outros, perdem muito a graça quando os sujeitos somos nós. É aí que entra o choque.
Fases de Choque Cultural
Há várias descrições do choque cultural. Normalmente, fala-se de várias fases.
Inicialmente, há o período do Turista. Tudo é divertido e colorido, há muita curiosidade e tudo parece uma grande e alegre aventura. Mas o missionário não é turista.
Logo vai ter que encarar a vida e vão acontecer episódios, como os narrados acima, e ele entrará na fase chamada Avestruz, quando ele tenta se esconder, recua frente à cultura local, fica desorientado sem saber o que se espera dele. Normalmente, é nessa fase que começa o afastamento e isolamento do missionário. Procura ficar mais e mais tempo em lugares que lembrem sua cultura e costumes. A tendência é fechar-se e começar a fazer comparações entre a sua terra e os costumes locais. Se esta fase não for vencida, o missionário acabará num período de autodestruição.
Os sentimentos hostis, o medo e a desilusão vão aumentar, ele terá receio de contactar o povo ou, pior ainda, pode ficar com raiva por sentir que, de alguma maneira, têm culpa por seu fracasso. Esses casos mais agudos costumam terminar em rejeição do trabalho e fuga do campo. De volta à sua terra, o indivíduo se sentirá frustrado e fracassado.
A fase de Avestruz, no entanto, pode ser vencida se o missionário entender o que está acontecendo e permitir-se alguns erros.
É importante ser honesto ao enfrentar seus sentimentos e, sobretudo, não aceitar cair no isolamento. Essa fase necessita da ajuda de missionários mais experientes e deve ser encarada com normalidade para dar lugar à fase de Criança, em que iniciará a aprendizagem. Exatamente como uma criança, vai cometer erros, mas também irá progredir rumo à desejada fase de Integração, quando o indivíduo pode ser considerado bicultural.
Cada missionário terá um timing diferente de adaptação. Uns parecem vencer mais depressa, outros precisam de mais tempo. Não fique se comparando. Faça seu “trabalho de casa”, procure avançar na aprendizagem cultural e lembre-se de que é parte da preparação para o trabalho. Não inicie o trabalho propriamente dito enquanto não perceber que já entende razoavelmente a cultura a que vai ministrar.


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