As alegrias e os desafios de se tornar multicultural

Tornar-se multicultural envolve muito trabalho e muitas vezes pode ser desgastante, mas as recompensas são incríveis.

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Foi uma daquelas noites felizes jantando com velhos amigos. Laurie e eu estávamos com dois casais que haviam sido nossos alunos anos atrás no Brasil e havia muito assunto para pôr em dia. Nós seis conversamos durante horas sobre suas vidas e ministérios no estrangeiro.

Embora vivessem em países diferentes do mundo muçulmano, cada casal havia se esforçado muito no aprendizado de idioma e agora, ambos estavam bem entrosados em suas culturas locais. Eles pareciam felizes e realizados e era óbvio que eles realmente gostavam do que faziam. Depois de tudo o que Laurie e eu havíamos tentado lhes ensinar anos antes, era muito gratificante vê-los agora. Fiquei maravilhado com a bondade de Deus.

Enquanto conversávamos, gradualmente percebi o significado do que estava ouvindo. Eles haviam se tornado obreiros cristãos biculturais.

Sem dúvida, um dos desafios do trabalho em missões é se tornar multicultural. As pessoas multiculturais saem da zona de conforto de sua cultura natal para outra, aprendendo um novo idioma e os comportamentos e costumes associados a ela. Fazer amigos em seu novo local lhes proporciona uma conexão mais profunda não apenas com as pessoas, mas com a própria cultura.

As pessoas multiculturais têm a capacidade de mudar a perspectiva e enxergar a vida pela cosmovisão do seu novo país. Isso as torna pessoas mais flexíveis e mais confiantes. Era isso que eu estava ouvindo nas entrelinhas, enquanto jantávamos juntos naquela noite. Havia alegria. Havia uma tranquilidade em suas vidas e em seu trabalho. Seu novo país havia se tornado seu lar. Conseguiam trabalhar bem em seu novo local sem ter perdido a conexão com seu país de origem, o Brasil.

Devo acrescentar aqui uma ressalva importante: nem sempre quem mora no exterior se torna multicultural. Algumas pessoas passam anos em outro país, mas vivem isoladas da cultura local. Na maioria dos casos, não aprenderam bem o idioma e têm poucos amigos em seu país anfitrião.

O caminho para o multiculturalismo não é fácil. Quando nos mudamos para um novo país, enfrentamos uma tarefa enorme. São necessários anos de trabalho para nos tornarmos multiculturais. Para estudar o idioma e a cultura locais, estabelecer relacionamentos com a população, aprender a receber visitantes e ser um bom visitante é preciso ter muita perseverança e intencionalidade. 

No entanto, quando uma pessoa se torna bicultural, torna-se mais funcional. Ao encontrar-se com alguém de outra cultura, a pessoa bicultural pode entende-lo mais rapidamente e se adaptar mais facilmente à cultura dele.

Marcus Dean menciona uma desvantagem de se tornar bicultural. Embora possam funcionar bem tanto em sua cultura de origem, quanto na cultura adotada, as pessoas biculturais não se sentem totalmente à vontade em nenhuma delas. Elas não se identificam completamente nem com uma, nem com outra e, até certo ponto, perdem o senso de pertencimento.

 

Perguntei aos meus amigos se eles ainda tinham dias difíceis. Um deles me respondeu: “Ainda tenho certas semanas difíceis”. Perguntei em quais momentos era mais difícil continuar morando ali e eles admitiram prontamente que há aspectos da cultura local que são desafiadores e até mesmo desgastantes.

Por esses motivos, o caminho para o biculturalismo não é para os fracos, mas rende recompensas incríveis. Adaptar-se profundamente ao modo de vida de seu novo país e tornar-se bicultural abre caminho: 

  • para amizades profundas com os habitantes locais;
  • para comunicar o evangelho de uma forma mais sensível e eficaz;
  • para ser lentamente moldado por essa cultura e assumir alguns de seus valores;
  • para que as pessoas locais deixem de ser um alvo para se tornarem membros da sua família.

 

Viver fora da cultura de origem produz outros efeitos. O obreiro transcultural pode passar a ver seu próprio país sob uma nova luz e começar a entender sua cultura de uma maneira mais profunda e com mais nuances. Além disso, a experiência de estar longe de casa em um novo contexto e novas situações o leva a conhecer melhor a Deus.

Por isso, volto ao ponto onde começamos. Tornar-se multicultural envolve muito trabalho e muitas vezes pode ser desgastante, mas as recompensas são incríveis.

Definitivamente, vale a pena todo o esforço.

 

David Williams.

 

Você pode ler mais sobre esse assunto nas páginas abaixo:

https://missionexus.org/the-missionary-as-cultural-pilgrim/ 

https://www.mrnet.org/mc-blog/2024-07 

 


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