Os privilégios e os perigos de se viver fora do Brasil na causa de Cristo

A vida missionária transcultural traz desafios e privilégios, mas também riscos ocultos. Este artigo convida à reflexão sobre identidade, motivação e a verdadeira razão para servir a Deus em missões.

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Ricardo Moreira

O estilo de vida escolhido pelos missionários transculturais em seus campos é uma questão urgente a ser ponderada pelo movimento missionário brasileiro. Pelo menos, esse é o sentimento deste autor que já esteve daquele lado e agora observa de fora a ilha na qual viveu.

Dedico esse texto, primeiramente, a todos os cristãos que servem a Deus fora de suas comunidades locais em ambientes transculturais, a todos que se sentem vocacionados para tal e, ainda, àqueles que estão refletindo sobre essa possibilidade. Em segundo lugar, a leitura deste texto pode sensibilizar o cristão que permanece em sua igreja a cuidar de um coração missionário.  

Ao contrário do que muitos imaginam, a vida em missões possui privilégios. Há muitos benefícios de se viver fora do Brasil como um trabalhador da causa de Cristo:

  1.   Um deles é o ganho existencial. O senso de realização e de propósito são únicos. O sentimento tão almejado por muitos de significado e realização é uma certeza quando você está vivendo como os protagonistas do Novo Testamento, ou seja, anônimos que se tornam heróis e exemplos. Passamos a ser admirados e nossas histórias inspiram outros cristãos. 
  2.   O ganho social é um fator indiscutível. Lembro-me de ouvir de um trabalhador experiente que me encorajava a abraçar minha vocação. Ele disse, “O Brasil se torna pequeno depois que moramos fora”. Quando adquirimos mais um idioma (não raramente, dois e em alguns casos, três) ou quando nos tornamos multiculturais, sabendo transitar em culturas distintas,  o local de origem passa a ser apenas mais um lugar. Tornamo-nos cidadãos globais enquanto nos esforçamos para sermos excelentes embaixadores da pátria celestial.
  3. Outra vantagem é a monetária. Alguns missionários vivem melhor fora do Brasil do que viviam em seu local de origem. Isso é uma verdade pouco palatável para alguns, mas muitas vezes essa é uma realidade que ocorre sem dolo algum. Muitos trabalham em países espiritualmente carentes, mas com um IDH melhor que o do seu país natal. Ainda que essa não seja a motivação inicial, muitas vezes é um ganho que não pode ser evitado.
  4. Outra vantagem é o acesso. A vida missionária permite à maioria dos trabalhadores transculturais o acesso a lugares e ambientes que o brasileiro comum jamais terá. Temos contato com outras culturas, recebemos mais informação e dominamos as rotas do mundo.  
 
Tudo isso traz alguns perigos:
  1.   Geralmente, o início da jornada é romântico e cheio de boas intenções, mas quando os benefícios chegam, muitos se apegam à nova vida e um possível retorno ao país originário significa uma perda efetiva. Não haverá escola bilíngue para os filhos, nem férias em lugares que outros sonham, nem sequer poderá usar os novos idiomas que adquiriu.
  2.   O medo da crise faz com que a permanência se torne uma necessidade. Agora, porém, já não se trata da necessidade do povo que nos recebeu ou do ministério de Deus naquele local, mas da necessidade do ego. Assim, surge o perigo de se perder na motivação por que você faz o que faz: É a necessidade do outro ou a sua própria que o move?
  3.   Outra grande ameaça está ligada à nossa identidade. Muitos passam tanto tempo em outra cultura que deixam de ser uma pessoa de verdade no local de origem e se tornam um mito, um símbolo de encorajamento, um projeto missionário. Essa perda de identidade é reforçada enquanto nos lançamos mais e mais na nova cultura e em nossa vida missionária. Consciente ou inconscientemente, quanto mais nos envolvemos na vida missionária, mais ganhos obtemos. No final, corremos o risco de perder nossa identidade porque, muitas vezes, ser o missionário é melhor do que ser simplesmente o João.

O que escancaramos até aqui é a verdade oculta, mas real, de que a vida missionária não é apenas sofrimento. Também há ganhos e eles podem nos deixar orgulhosos e menos dependentes do Senhor.

Alguns já estão perdidos vocacionalmente quando vão aos perdidos espirituais. Não sabem mais quem são, nem o motivo de fazerem o que fazem por estarem confusos na missão de Deus, em razão dos benefícios da vida missionária. 

Quero deixar claro, porém, que podemos nos precaver desses perigos e evitar tais tragédias e para isso, recomendo as seguintes atitudes:
  • Primeiramente, saiba quem você é em Deus. Jamais esqueça sua identidade. Não importa se a missão trouxe perdas ou ganhos, sua dignidade está nos méritos de Cristo na cruz. Ele o adotou como filho e o fez sacerdote do Deus vivo.
  • Missionário é uma condição de serviço, não a nossa identidade. Um título ou uma posição não podem definir quem somos.
  • O valor da nossa adoção e das recompensas eternas superam qualquer lucro terreno. Por isso, Jesus exortou os discípulos em Lucas 10, quando retornaram da missão, que eles se alegrassem primeiro na salvação deles.
  • A missão pertence ao Senhor. Ele está trabalhando desde a eternidade e somos apenas pontos no grande plano de Deus que começou bem antes de nós e se cumprirá além de nós. Ele é o início e o fim.
  • Finalmente, não devemos nos esquecer da nossa motivação. Não devemos trabalhar pela necessidade do outro, nem tampouco pelas nossas necessidades, mas por obediência a Deus. Nossa motivação precisa ser sempre o cumprimento humilde e obediente da nossa vocação como servos.
“Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lucas 17.10).

 

Ricardo Moreira
Publicado originalmente em
https://www.martureo.com.br/missio-dei-missio-life/
Adaptado pelo autor.

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