por Jairo de Oliveira
Ao ser introduzido em um novo ambiente cultural, o missionário, certamente, cometerá deslizes. É inevitável! Alguns são muito comuns (sobretudo nos primeiros meses e anos no campo), mas devem ser evitados, pois os prejuízos são enormes e podem comprometer significativamente o sucesso do trabalho a ser desenvolvido e até a permanência do missionário em determinado grupo.
O fator principal que ajuda a prevenir deslizes mais graves é o preparo. O que a prática missionária tem provado é que os missionários enviados ao campo sem nenhum preparo (teológico, missiológico, antropológico e linguístico), chegam em desvantagem em relação aos missionários que investiram tempo se preparando. Pois, entre outros fatores, o preparo oferece ao candidato as devidas ferramentas para desenvolver um trabalho sério no campo, uma visão prévia do que enfrentará e a maneira como deve se comportar em um novo contexto cultural.
No entanto, embora seja fundamental, o preparo não é garantia de sucesso, e mesmo o missionário que se equipou bem estará sujeito a cometer erros no seu ministério. Entre os mais comuns e mais comprometedores, apresento, a seguir, uma lista com dez deslizes que devem ser rigorosamente evitados por um obreiro iniciante ao ser introduzido no campo missionário transcultural.
1) Julgar que sua cultura é superior à do povo em que está trabalhando.
Inferiorizar a cultura dos nacionais será sempre uma atitude reprovável. Quando alguém age dessa forma, dificilmente conquistará o carinho e a confiança do povo.
Quem chega em uma nova cultura precisa ter o cuidado de não assumir uma postura arrogante, antes, deve se relacionar com a comunidade como alguém que chegou para aprender e compartilhar o que sabe.
2) Desrespeitar os nacionais.
O desrespeito ao povo resultará, certamente, numa atitude de rejeição em relação ao obreiro e, provavelmente, aos futuros missionários que desejarem atuar com o grupo. O relacionamento do recém-chegado com a comunidade deve ser sempre autêntico e, ao mesmo tempo, respeitoso, utilizando-se de uma linguagem temperada (Cl 4.6).
3) Comparar constantemente a cultura local ou o país adotivo com a cultura e com o país de origem.
Um dos deslizes mais comuns cometidos por alguém que se encontra em uma cultura diferente é a constante comparação da cultura em contato com a sua cultura de origem. Na maioria das vezes, fazemos isso de forma inconsciente. Mas, sem perceber, estamos criando um clima bastante desagradável e até mesmo de rivalidade com o grupo étnico que estamos envolvidos. A famosa frase: “No Brasil é diferente“, deve ser radicalmente evitada nas primeiras semanas e meses, antes que seja tarde demais.
4) Desvalorizar o estudo diário da língua e da cultura.
Aprender a língua e a cultura do povo adotivo é fundamental para um missionário que deseja se comunicar com eficácia no seu novo contexto. É preciso que ele sofra um processo de imersão e se dedique diariamente ao estudo da língua e da cultura reagente. Na verdade, esse é o primeiro ministério de quem chega no campo e aquele que despreza a oportunidade de estudar a língua e a cultura do povo, desde o primeiro dia, terá poucas chances de se tornar um missionário bem-sucedido.
5) Ser inflexível às mudanças e quebras de paradigmas.
O missionário precisa estar disposto a mudar e a se adaptar ao estilo de vida na nova pátria. O sucesso durante esse processo depende, em boa parte, do comportamento do próprio missionário. O ideal é que ele descubra os bons costumes e se adapte a eles. A inadequação à cultura local limitará bastante a ação do missionário, além de promover embates com a nova cultura e até a manifestação de um comportamento agressivo no contato com pessoas.
6) Desrespeitar leis ou normas do lugar (povo, país ou instituições).
Não poucos obreiros, especialmente de curto prazo, em nome da fé e de um ministério que impressione os nacionais e as igrejas enviadoras, desrespeitam leis e normas do lugar em que estão atuando. Entretanto, os resultados da desobediência e insubmissão às autoridades geralmente recaem sobre os ombros dos missionários de carreira. Esses, por permanecerem mais tempo no campo, acabam sendo responsabilizados e tendo de responder por atitudes impensadas de alguns obreiros que não medem as consequências.
7) Pensar que tem todas as soluções para todos os problemas no campo e irá resolvê-los.
É comum entre os missionários, nos primeiros meses e anos de trabalho, acumularem muito desgaste por tentarem atender a todas as necessidades que surgem. No entanto, o obreiro irá se frustrar se pensar que é o “salvador da pátria”. Cuidado com o acúmulo de atividades; divida a carga, seja um gestor, siga o conselho que Jetro deu ao seu genro Moisés (Êx 18.19-24).
Outro cuidado que se deve ter é o de não assumir uma postura de paternalismo ou colonialismo no desejo de ver a obra de Deus sendo realizada. Lembre-se: possíveis soluções devem ser discutidas e encontradas junto com a equipe de trabalho (se houver) e, principalmente, com a comunidade.
8) Achar que os que estão no campo há mais tempo sabem menos.
Até mesmo com boa intenção, é possível alguém chegar à conclusão de que, mesmo sendo um iniciante, está vendo algo que os missionários mais experientes não veem e que tem o vigor necessário para fazer todas as transformações necessárias que o trabalho precisa. Diante dessa suposição, o missionário iniciante deve ir com calma, não deve ser precipitado. A atitude mais sábia para quem está chegando no campo é procurar aprender com aqueles que trabalham há mais tempo.
9) Desprezar o trabalho em equipe e o relacionamento com outros missionários.
O missionário não deve pensar que realizará todo o trabalho sozinho, e que não precisa do auxílio dos seus companheiros de equipe. No campo missionário, relacionamentos entre colegas de equipe são estreitados e, normalmente, diferenças são evidenciadas. Diante desse fato, o missionário precisa ter consciência de que precisa dos colegas de equipe e que, juntos, representam o Corpo de Cristo no campo missionário.
10) Ofender-se com os erros cometidos.
Evidentemente, a figura do missionário perfeito é irreal e, além dos deslizes apresentados aqui, há muitos outros que estamos sujeitos a cometer no campo missionário. Portanto, no desejo de se aculturar, o missionário certamente cometerá muitas gafes e o melhor é rir delas em vez de se ofender ou se culpar, culpar os outros ou se frustrar. Erros são inevitáveis e podem se tornar importantes em nossa caminhada, dependendo da maneira como reagiremos a eles.
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