O problema com as generalizações é a perda de identidade e convicção. Ou seja, o trabalho que é de todos acaba por não ser de ninguém. Infelizmente, é o que tem acontecido com a má compreensão do chamado de Deus.
Ouvimos com frequência a frase: “Somos todos missionários”. E se é verdade que, em certo sentido, somos todos chamados a ser testemunhas, não é verdade que somos todos chamados para a obra específica de missões transculturais. Quando todos são missionários, diluímos a responsabilidade, o trabalho e o valor.
Uma coisa é contemplar um homem ou mulher de Deus, que dedica toda sua vida à obra do Senhor, que gasta anos de preparação para o trabalho e que investe toda sua carreira no serviço de Deus em prol dos não salvos numa realidade cultural diferente. E outra coisa bem diferente é um jovem, bem-intencionado, que faz uma viagem de 15 dias a um campo missionário para ajudar a construir uma escola.
Chamar esses dois irmãos em Cristo de “missionários” em pé de igualdade é fazer um desserviço à causa. Precisamos de voluntários para trabalhos de curta duração e eles podem ser uma bênção na obra, mas não confundamos as coisas. Não se trata do mesmo tipo de chamado que um missionário de carreira tem.
O chamado de Deus é:
- Pessoal – é dado ao chamado de modo pessoal e não genérico;
- Inequívoco – é claro e evidente, não deixando dúvidas;
- Intransferível – é de cada um e não pode ser passado a outros;
- Proposital – vem com uma convicção forte que leva a uma busca constante de estar no centro da vontade de Deus.
Cuidado para não confundir as coisas!
Vamos verificar algumas situações em que pode haver confusão em relação ao chamado:
- Por vezes, o crente está muito envolvido com seu trabalho e sente que sua atividade profissional o desvia do serviço ao Senhor. Sente verdadeira culpa por não estar mais envolvido e cada vez que ouve alguém falar de missões fica perturbado. É preciso ter cuidado porque o complexo de culpa por falta de devoção não é chamado.
- Há aqueles cujos corações são sensíveis aos perdidos e que facilmente se emocionam com as imagens dos campos missionários. Cada vez que ouvem falar de missões, ficam animados. Correm de congresso missionário em congresso missionário, admirando e romanceando a vida nos campos distantes.
Gostar de conhecer outras culturas é uma coisa, chamado missionário para um campo transcultural é outra muito diferente. - Há também os que nunca estão contentes com o que têm e fazem. Vivem num constante rodopio trocando de igreja, de trabalho, de bairro. Estão inquietos pela vida interior não satisfeita e julgam que a resposta pode estar num trabalho cristão em tempo integral.
Muitas vezes, o que existe é busca de protagonismo, desejo de reconhecimento. Mas, o campo missionário não é o lugar para quem quer receber honras e apreço.
O que é então o Chamado?
O chamado para a obra missionária é em geral uma convicção interior, trabalho do Espírito Santo, que se desenvolve com algum tempo até se tornar uma forte certeza que enche o coração e dirige a vida. Vemos que pode acontecer em situações e circunstâncias bem pouco dramáticas e que, no entanto, trazem convicção tão forte quanto uma visita angelical.
O chamado pode tomar formas diferentes porque o Senhor respeita as individualidades.
Esse chamado é, por regra, marcado pela palavra de Deus, que mostra ao servo de Jesus o seu propósito específico para sua vida, por uma vida de oração que confirma a vontade de Deus e pela confirmação da Igreja de Cristo que dá testemunho externo daquilo que se passa interiormente na vida daquele irmão.
Clique aqui e veja também um artigo sobre: Dúvidas comuns sobre o chamado para missões.
As três marcas do Chamado:
O chamado para o ministério missionário como o definimos envolve características que são evidentes em todos os verdadeiramente chamados.
- Sacrifício: Ser missionário não é uma brincadeira no parque. Ir para a frente de combate, é se posicionar diante da ira do inimigo. Aquele que tem o chamado para a obra missionária está pronto a fazer o que for preciso. Não mede seu esforço pelas condições que vai encontrar, o salário que vai ganhar, os riscos que vai correr ou o tempo que vai levar.
- Foco em almas: Devemos vencer o facilitismo que atribui ministério a qualquer atividade de fazer o bem. Jesus chamou os seus discípulos para serem pescadores de homens. Vivemos hoje uma visão, em muitos contextos missionários, que qualquer atividade feita para ajudar a população é “missões”. Mas não é! Construir uma escola, furar um poço, edificar um ambulatório médico ou clínica dentária, instalar uma rádio comunitária, ensinar crianças a jogar futebol, não é em si mesmo missões. Eu fiz tudo isso com alegria e por isso posso falar com tranquilidade. Nada disso terá valor eterno se não houver um esforço específico e concentrado em levar a Cristo, ganhar almas e fundar igrejas.
- Perseverança: Gente que depois de 6 meses está pronta para ir para casa não teve chamado. O vocacionado para a missão entende que o chamado é para a vida. Quando pensamos em povos que ainda não ouviram de Jesus, estamos falando de um trabalho de décadas e não de semanas. Os campos precisam de gente disposta a dedicar seus melhores anos e perseverar até a obra estar feita, o que implica, em algumas áreas, gastar a vida toda para ver a igreja bem plantada e florescendo. Olhar para trás não é opção, não faz parte do cardápio.
O Senhor chama alguns para ministérios específicos de edificação da igreja e os capacita para servi-Lo desse modo. O Senhor chama também alguns para um ministério missionário, para serem Seus enviados especificamente a contextos transculturais para crescimento e expansão do reino. Entre aqueles que o Senhor chama, Ele pode também dirigir especificamente para campos e povos ainda não alcançados.
Joed Venturini
Extraído do Capítulo 1 “Sim! Sou chamado para o campo” (páginas 13-19) do livro Antes do Ide de Joed Venturini de Souza (2ª edição, 2024).


Respostas de 3
Devemos buscar a vontade de Deus para nossa vida e so depois de confirmado o que Ele realmente tem para nós é que vamos nos dedicar ao que Ele nos chamou para fazermos. Ir para o campo sem ter a convicção do chamado pode custar a própria vida.
Excelente. Estou com minha esposa no Sertão da Paraíba há 4 anos, onde começamos a mobilizar equipes de voluntários nas férias em 2019, o que evoluiu para uma Base e Escola em 2021, que gerou 3 igrejas plantadas e hoje moram 14 missionários na cidade que desenvolvem o trabalho. Todos os pontos abordados acima foram e são comprovados na nossa liderança. Agora em 2025 eu e minha esposa estamos começando nos mover para Europa no mesmo sentido: mobilizar equipes, iniciar uma Base e plantar igrejas onde precisa. Obrigado por compartilhar e nos ensinar.