Ricardo Moreira
Em conversas com líderes brasileiros de agências missionárias e companheiros que deixei no campo transcultural, percebi que os missionários brasileiros têm sofrido de transtornos emocionais com cada vez mais frequência. Muitos retornam à pátria antes do tempo planejado para serem cuidados. Outros permanecem adoecidos, agravando sua situação.
Pesquisas mais aprofundadas nessa área se fazem urgentes, mas podemos observar um fator significativo para essa tendência: o decréscimo dos treinamentos missiológicos no Brasil. Nos últimos anos, presenciamos a redução da carga horária dos cursos de preparação de missionários, a terceirização das agências para instituições de ensino e a substituição do treinamento no Brasil pela formação no campo.
Pragmaticamente, essas ações foram positivas em certos aspectos como a queda do custo da formação, a redução das barreiras para a chegada ao campo, o encurtamento do prazo para o envio e o aumento da presença missionária brasileira fora do país.
Os efeitos negativos em médio prazo, no entanto, já são perceptíveis e, olhando para os anos vindouros, suspeitamos de frutos ainda mais amargos.
Diante da urgência de alcançar os não alcançados, corremos o risco de enviar à linha de frente pessoas sem as condições necessárias para a execução da tarefa missionária.
Minha hipótese para a razão da crescente incidência de desordens mentais e espirituais entre missionários brasileiros nos últimos anos não é o caos global gerado pelo Covid-19, mas a severa diminuição do preparo para a vida missionária antes da saída do Brasil.
Sabemos que a vida humana é complexa e o trabalho transcultural não é uma ciência exata, sempre há exceções. No entanto, a experiência nos mostra que as pessoas mais preparadas são mais bem sucedidas no campo.
- O indivíduo que sai do país natal falando dois idiomas, aprenderá a língua local mais rapidamente;
- O obreiro que tem uma formação profissional relevante terá uma identidade mais sólida no campo;
- Aquele que conhece melhor a cultura alvo, que já experimentou imersões, terá um choque cultural minimizado;
- Aquele que domina as ferramentas da antropologia entenderá melhor a nova realidade;
- O autoconhecimento reduzirá atritos com os colegas e produzirá uma experiência psicologicamente mais saudável.
Acredito que a falência no ministério seja mais provável entre os missionários menos preparados porque:
- Podem permanecer no campo, mas, sem conhecimentos de antropologia, não compreendem a cultura;
- Podem se adaptar e sobreviver, mas não se aculturam profundamente;
- Podem aprender o idioma para se comunicar minimamente, mas sem preparo linguístico, não terão a fluência necessária para que os locais possam entender o evangelho;
- Podem se tornar suscetíveis a enfermidades psíquicas ao gerir suas rotinas em ambiente transcultural devido a falta de conhecimentos das suas próprias limitações e fraquezas;
- Podem ofender gravemente as pessoas que desejam alcançar por desconhecer a religião do povo. Ex: Conheci um missionário no Oriente Médio que ao chegar em um país árabe muçulmano, não sabia sequer quais eram os cinco pilares do Islã.
O preparo realizado exclusivamente no campo é menos efetivo. Não podemos ensinar equação de segundo grau para alguém que não domina operações simples como adição e multiplicação. No campo, uma pessoa lidará com medos, saudades, incertezas, lutas espirituais, ajustes e até privações. Creio, porém, que o preparo prévio minimiza os desafios iniciais e torna o obreiro apto a gerir questões mais profundas e aproveitar melhor a capacitação continuada no campo.
Ofereço as seguintes sugestões para os candidatos à carreira missionária:
- Converse com obreiros experientes;
- Se possível, visite campos transculturais;
- Cultive uma visão de longo prazo;
- Estude linguística e inglês;
- Estude missiologia, sobretudo antropologia missionária;
- Desenvolva a habilidade de se comunicar com a igreja e parceiros através de relatórios ou no púlpito.
De modo semelhante, sugiro aos líderes de igrejas que estão ajudando a preparar novos obreiros:
- Não tenham pressa no envio do obreiro. “Os melhores frutos são produzidos na sombra”;
- Discipule-os bem nas disciplinas espirituais: oração, leitura da Palavra de Deus, jejum e orientação espiritual. O mundo não precisa simplesmente de mais missionários, mas de obreiros espirituais;
- Incentive o candidato a fazer um bom curso de Teologia Sistemática ou Teologia Básica;
- Encoraje o preparo missiológico.
Um vocacionado bem preparado terá maior probabilidade de ser um obreiro frutífero, obterá resultados efetivos e fará mais, por mais tempo e melhor.
Publicado originalmente em https://www.martureo.com.br/luz-amarela/ Adaptado pelo autor.
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